quinta-feira, 5 de julho de 2018

BREVE ENTREVISTA COM CLARINDO SILVA

O agitador cultural Clarindo Silva, dono da Cantina da Lua, gentilmente, foi protagonista da entrevista realizada por mim, Clarindo que é um nome extremamente conhecido no cenário do Centro histórico de Salvador, é amigo da minha família, pois minha irmã é cantora e faz parte de uma banda fundada no Pelourinho, a Banda Mulherada, banda percussiva formada somente por mulheres.



Seu Clarindo, o que acredita que o Pelourinho representa para Salvador em poucas palavras?

Resposta: O Pelourinho representa um berço de luta e resistência para o povo de Salvador, ainda que alguns não tenham essa consciência, neste lugar tem muito da história não só de Salvador, mas de toda a Bahia. No Pelourinho você encontra todas as tribos, todas as cores e até todos os idiomas. Isso não deixa de ser um reflexo do Brasil de 1500 e sua colonização. O Pelourinho é o mundo na Bahia, o mundo em Salvador.

O que acha quando dizem por aí que o Pelourinho está entregue a violência? O senhor acredita que os governantes realmente viraram as costas pro Centro Histórico de Salvador?




Resposta: A população acha que aqui é inseguro, e não é. Às vezes a sensação de insegurança é maior que a insegurança. O Pelourinho respira arte e cultura! Não admito em hipótese alguma que alguém fale mal à respeito deste lugar. Acredito que quem fala mal é porque não conhece, de fato. O Pelourinho é berço artístico e cultural dessa cidade, os melhores artista passam e já passaram por aqui. O governo, sem dúvida poderia fazer muito mais do que já faz pelo Centro Histórico de Salvador. Eu sinto que há mais preocupação quando se aproxima período de festas. Muita gente sofre e passa necessidades nas ruas ocultas deste lugar, essas pessoas sim precisam de assistência e atenção das autoridades.


Nos últimos tempos muito tem se noticiado sobre o descaso com o centro histórico de Salvador, os casos de casarões que caíram, por exemplo. O que você pensa sobre esse descaso com a cidade?
Resposta: Acredito que há uma má vontade, omissão dos órgãos públicos responsáveis quando se trata de dar uma assistência e orientação para as pessoas que moram nesses lugares, assim como viabilizar investimentos pontuais para a preservação desse patrimônio, tendo em vista que a maioria dos proprietários são pessoas de baixa renda e não tem condições de custear reformas e afins, já que são imóveis tombados e requer o atendimento de requisitos específicos para que ocorra algum tipo de intervenção etc. É evidente a falta de planejamento e investimentos aplicados corretamente e isso se arrasta ao longo dos anos, não há uma preocupação com o elemento humano residente desses espaços. E com os acontecimentos mais recentes de desabamento vitimando pessoas e vários prédios condenados, houve um aceleramento na demolição desses prédios sem nenhum estudo técnico por parte da prefeitura e com aval do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artista Nacional), é uma área da cidade que está passando por um processo de violento, brutal...



O Pelourinho mudou muito com o passar dos anos?

Resposta: Acredito que em sua essência, não! Mas visualmente é nítido. Alguns lugares positivamente, outros negativamente, contudo, até mesmo essas mudanças serviram para construir e dar cara ao Pelourinho dos tempos de hoje. O que não se pode é tirar do povo um patrimônio que é deles!




PELOURINHO ONTEM E HOJE : PRÉ E PÓS REFORMA

O centro histórico de Salvador, localizado na região central da cidade, passou por uma reforma nos anos 90, situação que acarretou diversas discussões. Um dos principais argumentos utilizados para interromper a reforma do Pelourinho foi a suposta ameaça que o turismo representava para a população local, materializada pelo efetivo deslocamento de muitas pessoas. Eis um tema difícil de abordar, complexo, polêmico e explosivo! Porém, simples de solucionar. Basta um levantamento e a elaboração de um cadastro único dos imóveis tombados que pertencem a diferentes pessoas físicas e instituições, seus ocupantes na época da reforma, e os atuais. Muitos casarões abandonados foram – ou estão! – invadidos.
Isto não justifica a retirada de inquilinos com direitos adquiridos que, entretanto, não eram responsáveis pela manutenção que não vinha sendo realizada pelo Estado falido, até a implantação do Pólo Petroquímico, e muitos não tinham recursos para investir na indústria cultural e turística emergente. Foi, efetivamente, um processo tão duro quanto a retirada de invasores – e aproveitadores! – que foram atraídos pelas indústrias petroquímicas, e se instalaram em praias, encostas e outros lugares de Salvador, inclusive no Pelourinho. A população da cidade dobrou entre as décadas de 70 e 90 do séc. XX, de 01 para 02 milhões, e faltou água, luz, esgoto, moradia e trabalho.
O desconhecimento da atividade, e a informação manipulada, geraram a desconfiança em relação ao turismo – que ainda existe! – e que evoluiu para um sentimento de posse, agravado nos últimos anos por outro discurso oportunista e eleitoreiro, o racial, que dificulta o diálogo, o entendimento, e a solução dos reais problemas de todos. Os responsáveis por esta situação não têm interesse, competência, ou coragem de discuti-la, reconhecer os erros e prejuízos causados à cidade, e reverte-la. O objetivo era o voto, o poder e o dinheiro, e só ganharam eles. O negro, branco ou mestiço pobre que acreditou, e deu “um voto de confiança”, vive em situação muito pior.
De quem é o Pelourinho? Ele sempre foi assim? Como explicar a existência deste lugar? O bairro é do município! O Centro Histórico, Patrimônio da Humanidade, é responsabilidade das três esferas de governo que deveriam apoiar um órgão gestor, que não existe em Salvador. Atualmente o Pelourinho está ligado a Secretaria de Cultura do Estado, mas quem manipula as milionárias verbas que ele tem direito é a Secretaria de Turismo. Muitos casarões pertencem ao Estado! Alguém está desobedecendo a Lei de Tombamento que obriga o Estado a recuperar o casarão que o proprietário não pode, para isto há recursos. Também está ferindo o Código Mundial de Ética do Turismo, assinado pelo Brasil, e que lhe garante verbas, além da própria Constituição brasileira.
O Pelourinho não foi sempre assim! No início tudo foi improvisado com madeira, barro e palha de coqueiros, e cercado de muralhas, depois houve a “modernização” do século XVII, com o dinheiro do açúcar e das minas. São exemplos desta época o edifício da Câmara e a Catedral, entre outros, todos no mesmo estilo e brancos. Os casarões coloridos são predominantemente dos séculos XVIII e XIX, apesar do início da decadência do lugar, com a transferência da capital e as mudanças na economia. A explicação para a existência do Pelourinho é, ironicamente, a falta de atividades, dinheiro e interesses para “modernizar” outra vez, mesmo com o ciclo do cacau e a descoberta do petróleo. Atualmente ele é vital para a cultura e a economia do município.
No séc. XX o turismo se expandiu com o uso do avião, o transito de pessoas nos atrativos se tornou mais intenso, e surgiu a preocupação com o efeito da atividade sobre estes lugares, monumentos e culturas. Em 1972 houve a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, organizada pela UNESCO, em Estocolmo, onde foi aprovada a Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural. Teve início o processo de identificação dos símbolos e atrativos que movimentam o turismo, foram elaboradas as leis do tombamento, e muitos lugares foram transformados em Patrimônio da Humanidade, já são 936, 19 deles no Brasil. Entretanto, até hoje, muitas pessoas consideram o turismo, predador. Coisa de rico, supérfluo!
Depois de 40 anos de faculdades de turismo e milhares de turismólogos ignorados completamente pelo Estado brasileiro, muitos estudos, e muitas discussões – alguns subutilizados ou “escondidos” pela USP, FGV e Min. Turismo – muitas pessoas já reconhecem a força econômica, a importância cultural, e a responsabilidade social da atividade. É quase 10% do PIB mundial, e fomenta outras 50 atividades, sem agredir o meio ambiente. O Pelourinho é a âncora do turismo da região e um motivo para muitos estrangeiros virem ao Brasil. Podem-se criar outros atrativos, mas tem que cuidar do Pelourinho. Sua ruína provocou a afastamento do turista, e a ruína de muitos baianos.
Não é demais dizer que o Pelourinho tem mais atrativos e potencial turístico que muitos outros lugares famosos no mundo, que também são freqüentados pelos “gestores” de Salvador. Não foi por acaso que Jorge Amado conquistou gigantes do pensamento, da literatura, do cinema e televisão, e das artes. O escritor falou das qualidades do povo colorido formado por exploradores e explorados, necessitados de comunicação e solidariedade, com carências que até hoje não foram atendidas, e que encontrou sua própria maneira de superar-se e impor-se. Sem mentiras, com trabalho e dignidade.
O candomblé, de origem africana, mas, desconhecido, discriminado e hostilizado por muitas pessoas que falam de racismo, deu “régua e compasso” para o pensamento baiano, preparou e revelou líderes e artistas, deu origem a muitas manifestações que são conhecidas no mundo e que sustentam milhares de baianos, emprestou a maioria dos símbolos explorados pelo turismo, principalmente a música e a culinária, e isto o mundo quer ver. Há muitos outros lugares bonitos, limpos e seguros, e sexo! Porém, milhões de pessoas pelo mundo afora querem ver “o que é que a Bahia tem”, não as baianas!
O povo, logicamente, é parte indissociável do conjunto econômico-social-cultural do Pelourinho. Moradores, freqüentadores, patrões e empregados, estudantes e artistas, boêmios, mas, contraditoriamente, discursos pseudo humanistas, o afastou mais ainda. Não foi a reforma, nem o turismo! Ao contrário do que dizem, o turismo atraiu muito mais pessoas ao lugar, deu trabalho a muitos, e facilitou o intercâmbio cultural através do contato com os ‘gringos”. É falsa, oportunista e irresponsável esta alegação de ‘elitização’, ‘parque temático’, ‘shopping’, ‘turistização’, ‘branqueamento’, ‘turismo sexual’, e outras tantas bobagens ditas, no mínimo, por desconhecimento da dinâmica da indústria cultural e turística.
O que garantiria a sustentabilidade do Pelourinho? Recuperar os casarões e passar para “o pobre povo, cada vez mais pobre”? Que não é proprietário, não os conservariam, nem explorariam? O lugar deveria ser mantido com dinheiro do contribuinte, que vê todos os dias seu dinheiro ser desviado pelos falsos socialistas? Ou o ideal são atividades que eduque, forme, revele, ocupe e sustente dignamente? Que gere impostos e outros benefícios para toda a cidade, e sua população? Salvador precisa discutir isto!
Salvador pode sair na frente de outras cidades criando leis que implante o ensino do turismo nas escolas do município, garanta o lugar do turismólogo no mercado de trabalho, e incentive no Pelourinho a instalação de faculdades, escolas de música, dança, artes, teatro, idiomas, e outras ligadas à cultura, transformando-o num centro cultural gerador de dinheiro, idéias, profissionais, artistas e líderes, como sempre foi. E, principalmente, promova a interação de baianos e turistas, brasileiros e estrangeiros, negros e brancos, ricos e pobres. Que seja lugar de criadores, não de predadores!

HISTÓRIA DO CENTRO HISTÓRICO DE SALVADOR

A história do bairro soteropolitano está, intimamente, ligada à história da própria cidade, fundada em 1549 por Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, que escolheu o lugar onde se localiza o Pelourinho por sua localização estratégica — no alto, próximo ao porto e com uma barreira natural constituída por uma elevação abrupta do terreno, verdadeira muralha de até noventa metros de altura por quinze quilômetros de extensão, facilitando a defesa da cidade. Era um bairro eminentemente residencial, onde se concentravam as melhores moradias até o início do século XX e como centro comercial e administrativo. A partir dos anos 1950, o Pelourinho sofreu um forte processo de degradação, com a modernização da cidade e a transferência de atividades econômicas para outras regiões da capital baiana, o que transformou aquela região do Centro Histórico em uma zona de prostituição e marginalidade mas tornando-se moradia popular e palco da cultura negra da cidade. Esta mudança demográfica que transformou o Pelourinho em um bairro negro ao decorrer do século XX deu origem aos grupos culturais e comunitários sediados no bairro que se transformaram nos anos 1980 e 1990 em atores políticos importantes á redemocratização brasileira. Somente a partir dos anos 1980 (com o reconhecimento do casario como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e dos anos 1990 (com a revitalização da região e a remoção da maioria dos moradores) é que o Pelourinho transformou-se no que é hoje: um centro de cultura pública onde o estado baiano apoia a cultivação de símbolos populares e étnicos.


A IMPORTÂNCIA DE SALVADOR


A importância da Cidade de Salvador, se estabelece por três significativas razões: o fato de ser uma rota inevitável na navegação para quem realizava a travessia por meio do Oceano Atlântico, o que culminou na necessidade de criação da mesma, sendo fundada em 29 de março de 1549 por Tomé de Souza; a instalação do governo colonial na referida cidade e a consequente implementação dos aparatos jurídico, político e administrativo da Colônia Portuguesa na América (Brasil); o crescimento grandioso da referida cidade, ao longo dos anos, tanto em números populacionais, quanto em significância, propriamente dita, em virtude das razões supracitadas.
Contudo, Salvador significava a época (e ainda hoje), local de referência, exigindo assim, crescimento por parte do seu entorno. Em outras palavras, a medida que crescia, propagava também, o desenvolvimento de áreas e regiões adjacentes.